A senha de autorização tem prazo de validade, e esse prazo não é definido pela ANS. Quem define é a operadora, no contrato e no manual do prestador, e ele varia de 30 a 180 dias conforme o plano. Quando a data passa, o procedimento marcado para depois dela deixa de estar coberto por aquela autorização.
Não existe número público sobre quanto um hospital deixa de faturar por senha vencida. O que existe é o rastro. A glosa inicial dos hospitais associados à Anahp chegou a 15,93% em 2025, contra 9% em 2022, e 67,9% do volume de glosa é evitável, contra 3,55% de divergência clínica. Data de senha que não bate com data de atendimento cai inteira no primeiro grupo.
E o pior efeito nem chega ao faturamento. Conta glosada volta para recurso e alonga o recebimento, já em 77,35 dias contra 48 dias de prazo para pagar fornecedor. Mas com a senha vencida antes do procedimento, a cirurgia nem acontece.
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Quem define o prazo, e onde ele fica escrito
O prazo não é combinado por telefone. Ele é um campo do padrão TISS. Na Guia de Solicitação de Internação, o campo 4 é a data da autorização, o campo 5 é a senha e o campo 6 é a data de validade da senha, preenchido em caso de autorização com emissão de senha com prazo de validade. A data chega ao hospital junto com a senha, ainda que muita gente só olhe o número e ignore o resto da guia.
Quem escolhe esse número é a operadora. A ANS regula quanto tempo ela pode demorar para atender, não quanto tempo a autorização dura depois de concedida. A norma em vigor é a RN 566, de 29 de dezembro de 2022, que passou a valer em 1º de fevereiro de 2023 e revogou a antiga RN 259, de 2011, com sete dias úteis para consulta básica e vinte e um dias úteis para procedimento de alta complexidade. Nenhum desses prazos diz respeito à validade da senha, que vem do contrato e aparece no manual do prestador.
| Regra publicada | Validade da senha |
|---|---|
| FioSaúde, página de autorizações de procedimento | 30 dias |
| Manual do Prestador da Unimed CNU, para todos os beneficiários do Sistema Unimed | 60 dias |
| Manual do Credenciado do SIS, plano do Senado Federal, contados da emissão | 90 dias |
| Postal Saúde, comunicado à rede credenciada de 20 de março de 2020 | 180 dias |
Quem atende dezenas de convênios não decora isso. Tenha a regra de cada operadora escrita em um lugar só, com a data da última conferência ao lado.
Por que a senha vence antes do procedimento
A senha raramente vence por esquecimento. Ela vence porque o intervalo entre autorizar e operar é maior do que parece quando a guia é liberada. Os motivos se repetem:
- Autorização antecipada demais. A Unimed CNU pede que a internação eletiva, com ou sem OPME, seja enviada 21 dias úteis antes do agendamento, e responde em até 21 dias úteis. A senha começa a correr quando sai, não quando a cirurgia é marcada.
- Exame pré-operatório fora do prazo. Risco cirúrgico vencido, cardiologista sem agenda. O paciente entra em fila de reavaliação e a senha continua contando.
- OPME pendente. A internação é autorizada e o material fica em análise. A cirurgia espera o material, e a autorização envelhece.
- Remarcação, do paciente ou do hospital. Infecção respiratória, viagem, urgência que entrou na frente, fila de leito de UTI. Um adiamento de três semanas consome metade de uma validade de 60 dias, e a senha não volta para o começo.
Quase nada dessa lista é falha de quem faz autorização. É o tempo normal de uma cirurgia eletiva batendo em um relógio que ninguém está olhando.
Revalidação: o que muda quando você pede de novo
Revalidar não é renovar automaticamente. Em algumas operadoras é um pedido simples à central. Em outras, a revalidação reabre a análise inteira, e é aí que o hospital se machuca.
O manual da Unimed CNU é explícito: a senha e a autorização para o tratamento têm validade de 60 dias para todos os beneficiários do Sistema Unimed, e depois desse período a revalidação só pode ser feita mediante apresentação de pedido médico atualizado. O paciente volta ao médico assistente, e o novo pedido entra em análise como se fosse a primeira vez. Se a operadora mudou critério no intervalo, a exigência aparece agora.
O mesmo manual traz outra regra que passa despercebida: alterações em guias só ocorrem até 10 dias úteis da liberação do atendimento. Já o Manual do Credenciado do SIS informa 90 dias contados da emissão, com revalidação possível. Dois desenhos diferentes, e a mesma equipe atendendo os dois na mesma manhã.
Negativa na revalidação continua sendo negativa. A RN 623, de 2024, em vigor desde 1º de julho de 2025, obriga a operadora a formalizar a recusa por escrito, com fundamentação em cláusula contratual ou dispositivo legal, sem que o beneficiário precise pedir.
Remarcação de cirurgia sem perder a autorização
Quando uma cirurgia é remarcada, a pergunta que quase ninguém faz é se a nova data cabe dentro da validade da senha. A conversa é sobre sala, equipe e preferência do paciente, e a autorização entra depois, quando já não dá para mudar nada.
A ordem que funciona é curta. Antes de fechar a nova data, alguém abre a guia e lê o campo de validade. Se a data ultrapassa o prazo, o pedido de revalidação sai no mesmo dia, com o novo pedido médico se a operadora exigir. Só então a data é confirmada com o paciente. Fechar primeiro e resolver a senha depois é o que produz cancelamento na véspera.
E cancelamento na véspera tem consequência. A Décima Quarta Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais condenou uma operadora e um hospital a indenizar em R$ 10 mil uma paciente que teve a histerectomia cancelada sob o argumento de que a senha da guia havia expirado, menos de 12 horas antes do horário marcado. O relator, desembargador Valdez Leite Machado, registrou que a falha na prestação do serviço era incontroversa. E o prejuízo do hospital não para na indenização: sala parada, equipe escalada e leito reservado são custo já incorrido e receita que não vai existir.
Quando a data não bate e a conta já foi enviada
Há o caso em que o procedimento nem acontece, e há o caso em que ele acontece assim mesmo, porque o médico não vai cancelar uma cirurgia por causa de um campo de data. Aí o problema migra para o faturamento e reaparece semanas depois como glosa. A Tabela 38 do TISS, que padroniza as mensagens de glosa e negativa, tem código próprio para cada variação:
- 1405. Data de validade da senha é anterior a data do atendimento.
- 1414. Data de validade da senha expirada.
- 1406. Número da senha informado diferente do liberado.
- 1437. Senha de autorização cancelada.
- 3103. Solicitação de autorização fora do prazo acordado.
Glosa por 1405 ou 1414 é das mais difíceis de reverter, porque o motivo é objetivo e documental. Não há discussão clínica a fazer: ou a data do atendimento está dentro da validade ou não está. Resta negociar caso a caso, gastando tempo de gente cara para recuperar valor que não deveria ter sido perdido. De cada R$ 100 faturados por hospitais, R$ 14,20 não chegam ao caixa somando glosa, negociação e inadimplência, segundo a ZG Soluções.
A rotina que evita o vencimento
Vencimento de senha é um dos poucos problemas de autorização que se resolvem com processo, sem depender da boa vontade da operadora. O que falta na maioria dos hospitais é alguém olhando a lista antes do prazo, e não depois.
- Registre a validade no agendamento. Não basta guardar o número da senha. A data precisa estar onde a cirurgia está marcada, visível para quem mexe na agenda.
- Tenha uma lista de senhas a vencer. Uma consulta diária das autorizações que vencem nos próximos 15 dias e ainda não foram usadas. Quinze dias dá tempo de conseguir pedido médico novo.
- Amarre remarcação e autorização. Nenhuma cirurgia muda de data sem que a nova data seja conferida contra a validade. A checagem cabe em trinta segundos.
- Guarde tudo. Guia original, protocolo, data e hora de cada contato. Em recurso de glosa por data, o protocolo da revalidação é o que separa uma discussão de uma perda.
A diferença entre o hospital que perde cirurgia por senha vencida e o que não perde quase nunca está no sistema. Está em quem abre essa lista toda manhã.
Perguntas frequentes
Depende da operadora, porque a ANS não fixa esse prazo. Ele está no contrato e no manual do prestador. Entre regras publicadas, a FioSaúde informa 30 dias, o manual da Unimed CNU informa 60 dias para todos os beneficiários do Sistema Unimed, o Manual do Credenciado do SIS, do Senado Federal, informa 90 dias contados da emissão, e a Postal Saúde comunicou 180 dias em 2020. A data da sua autorização vem no campo de validade da senha, na guia.
Em geral sim, mas as condições variam. Em algumas operadoras é um pedido simples à central de autorização. Em outras exige documento novo: o manual da Unimed CNU determina que, passados os 60 dias, a revalidação só pode ser feita com pedido médico atualizado. Como o pedido volta para análise, a operadora pode aplicar critérios que não existiam quando a primeira senha saiu.
Administrativamente, a operadora bloqueia o procedimento sem senha válida. Juridicamente, cancelar na véspera por vencimento já foi reconhecido como falha de serviço: a Décima Quarta Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais condenou operadora e hospital a pagar R$ 10 mil a uma paciente que teve a histerectomia cancelada por senha expirada. A recusa também precisa vir por escrito e fundamentada, conforme a RN 623 de 2024.
Não. A ANS regula o prazo máximo para a operadora atender, não a duração da autorização já concedida. A norma em vigor é a RN 566, de 29 de dezembro de 2022, que passou a valer em 1º de fevereiro de 2023 e revogou a RN 259 de 2011. Ela fixa, por exemplo, sete dias úteis para consulta básica e vinte e um dias úteis para procedimento de alta complexidade. A validade da senha é matéria contratual.
Peça a revalidação antes de confirmar a nova data com o paciente, e não depois. Verifique no manual daquela operadora se ela exige pedido médico atualizado, porque isso significa marcar retorno com o médico assistente e contar o tempo de análise de novo. Guarde o protocolo de cada contato. Se a operadora negar, a negativa precisa vir por escrito e fundamentada, e é esse documento que sustenta o recurso.
Fontes: Padrão TISS, legenda da Guia de Solicitação de Internação e Tabela 38 de mensagens de glosas e negativas; Resoluções Normativas da ANS nº 566, de 2022, e nº 623, de 2024; Manual do Prestador de Serviços Assistenciais da Unimed CNU; página de autorizações da FioSaúde; Manual do Credenciado do SIS, Senado Federal; comunicado da Postal Saúde à rede credenciada, de março de 2020; Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Décima Quarta Câmara Cível, relator Valdez Leite Machado; Observatório Anahp; ZG Soluções.
Quanto da sua glosa dava para evitar antes do envio?
Dois terços do que a operadora contesta é falha de código, valor, documento ou autorização. Em oito semanas, da assinatura ao sistema no ar, toda conta passa a ser conferida contra o contrato daquela operadora antes de sair.
