O demonstrativo de análise de conta é o documento em que a operadora devolve ao hospital o resultado da análise de cada lote enviado: quanto foi cobrado, quanto ela vai pagar, quanto glosou e por qual motivo. Todo recurso de glosa começa nele, e mesmo assim ele costuma ser lido com pressa, só para conferir o valor que vai entrar.
O peso desse documento aparece nos números do setor. Entre os hospitais associados à Anahp, a operadora contestou 15,93% do valor faturado na primeira análise em 2025, e o hospital levou em média 77,35 dias para receber. Cada ponto desse percentual chegou ao hospital como uma linha de demonstrativo, com valor e código de motivo.
Ler bem o demonstrativo não reverte glosa sozinho. O que a leitura faz é separar o que deve voltar como recurso, o que deve ser corrigido e reapresentado e o que precisa ser resolvido no cadastro para não se repetir no mês seguinte. No Panorama do Ciclo de Receita 2026, da ZG Soluções, 67,9% do volume glosado veio de causa evitável.
Neste texto
O que é o demonstrativo e de onde ele vem
O demonstrativo de análise de conta faz parte do padrão TISS, a troca obrigatória de informações entre operadoras e prestadores definida pela ANS. O hospital envia as contas em lotes de guias. A operadora analisa, e o demonstrativo é a resposta dela: guia por guia, item por item, com o que foi aceito e o que foi recusado.
Ele é diferente do demonstrativo de pagamento, que também é um documento do padrão. O de pagamento informa o que foi pago numa data, com os descontos e créditos daquele pagamento. O de análise mostra a decisão sobre cada linha da conta, e é nele que está o motivo da glosa.
O hospital tem direito a esse motivo. A Resolução Normativa 503/2022 proíbe o contrato de impedir o acesso do prestador às justificativas das glosas e de impedir a contestação, desde que o faturamento seja enviado no padrão TISS vigente. O demonstrativo é a forma como essa justificativa chega.
Lote, guia e item: onde a glosa aparece
O demonstrativo tem três níveis, e o código de glosa pode aparecer em qualquer um deles. Pela legenda do padrão TISS, o código do motivo, tirado da Tabela 38, só é preenchido no lote quando o lote inteiro foi glosado, e só na guia quando a guia inteira foi glosada. Nos outros casos, ele fica no item.
| Nível | Quando traz código de glosa | O que costuma estar por trás | Quem resolve |
|---|---|---|---|
| Lote | O lote inteiro foi recusado | Arquivo que não passou na validação, lote fora do prazo de apresentação do contrato, dado do prestador errado | Quem cuida da integração, com o faturamento |
| Guia | A guia inteira foi recusada | Carteira ou beneficiário inválidos, guia duplicada, falta de senha para o atendimento inteiro | Faturamento e autorização |
| Item | Um procedimento ou item da guia foi recusado | Valor, quantidade, código do item, documento ou justificativa daquele item | Faturamento, e a auditoria quando o motivo é clínico |
Glosa de lote e de guia é menos frequente, mas concentra valor e costuma ter uma causa só. Glosa de item é onde está o volume, e onde o motivo precisa ser lido linha a linha.
O lote tem dois números: o que o hospital deu ao enviar e o protocolo que a operadora atribuiu ao receber. A data do protocolo é a data em que a operadora recebeu o lote, e vale conferi-la contra o registro de envio do hospital, porque todo prazo contado a partir do recebimento começa nela. Cada lote e cada guia trazem ainda um código de situação, de outra tabela do padrão, a de número 47, que informa em que ponto do processamento eles estão.
Os quatro valores e a conta que precisa fechar
Cada item glosado traz quatro valores, e a mesma estrutura se repete no total da guia, do lote e do demonstrativo inteiro.
- Valor informado. O que o hospital cobrou pelo item.
- Valor processado. O valor que a operadora usou como base para calcular o pagamento.
- Valor liberado. O que está previsto para pagamento. Pela definição do padrão, é o valor informado menos o valor glosado.
- Valor glosa. O que a operadora recusou.
Daí sai a conferência mais simples do demonstrativo: informado menos glosa tem que dar o liberado, em cada linha. A soma dos itens tem que dar o total da guia, a soma das guias tem que dar o total do lote, e o total informado do lote tem que ser igual ao que o hospital enviou. Quando alguma dessas contas não fecha, há um erro de processamento de um dos lados, e ele precisa ser resolvido antes de qualquer discussão de mérito.
O valor processado merece atenção à parte. Quando ele difere do informado, a operadora recalculou a linha, e a primeira pergunta é com qual tabela e com qual versão dela.
Um exemplo com números redondos
O hospital cobrou 4 unidades de um material a R$ 300,00, total informado de R$ 1.200,00. A operadora processou a linha a R$ 255,00 por unidade, glosou R$ 180,00 e liberou R$ 1.020,00. A conta fecha: 1.200 menos 180 dá 1.020. A pergunta que sobra é se R$ 255,00 é o preço do contrato na data do atendimento. Se for, a glosa está certa e o erro está no cadastro de preço do hospital. Se não for, cabe recurso com a cláusula e a tabela vigente naquela data.
Como ler um demonstrativo, na ordem
- Bata a identificação com o envio. Número do lote, protocolo e data do protocolo precisam corresponder ao que saiu do hospital. Guia enviada que não aparece em nenhum demonstrativo não foi paga nem glosada, e precisa ser cobrada da operadora.
- Feche os totais. Informado, liberado e glosa, por guia e por lote. Se não fecham, peça a revisão do processamento antes de montar qualquer recurso.
- Trate primeiro a glosa de lote e de guia. Uma causa só costuma explicar tudo, e o valor é alto.
- Agrupe os itens pelo código do motivo. O código da Tabela 38 diz se a discussão é de forma, de preço ou de mérito, e para qual mesa o item vai. O texto sobre códigos de glosa do TISS explica como ler cada faixa.
- Marque o prazo. O prazo para contestar vem do contrato, e a RN 503/2022 exige que ele esteja escrito. Registre a data limite de cada lote no dia em que o demonstrativo chega.
O que contestar, o que corrigir e o que encerrar
Depois de agrupada, cada parte da glosa cai numa de poucas situações. O que decide o caminho é o motivo, somado à prova que o hospital tem.
| O que aparece no demonstrativo | O que fazer |
|---|---|
| Informado, glosa e liberado não fecham | Pedir revisão do processamento, sem entrar no mérito |
| Código de motivo que não existe na versão vigente da Tabela 38, ou motivo em texto livre | Pedir o motivo em código vigente antes de recorrer |
| Motivo de forma: carteira, código do item, campo obrigatório, guia duplicada | Corrigir e reapresentar |
| Motivo de preço, com o contrato a favor do hospital | Recurso com a cláusula, o aditivo e a tabela da data do atendimento |
| Motivo de mérito: quantidade, permanência, justificativa clínica | Recurso com o trecho do prontuário que sustenta o item |
| Glosa correta | Encerrar, registrar a causa e corrigir a origem |
O que vai para recurso segue a estrutura descrita em como montar um recurso de glosa: identificação do item, motivo citado, fato, prova ligada ao item e pedido. A glosa de preço tem um texto próprio, sobre glosa por valor.
Por que guardar o demonstrativo como dado
Em muito hospital, o demonstrativo é tratado como documento de passagem. Ele chega, alguém confere o valor, o arquivo vai para uma pasta e o motivo fica esquecido. Com isso, perde-se o único registro, item a item, do que cada operadora recusa e por quê.
Guardado como dado, com lote, guia, item, código, valor e data, o demonstrativo responde a perguntas que hoje dependem de memória: qual operadora mais glosa, qual motivo mais pesa, qual setor origina a glosa e quanto volta depois do recurso. Com alguns meses de histórico, os motivos que se repetem já aparecem.
O motivo que se repete é o que dá para resolver antes do envio. É esse o trabalho da Aferi: ler o demonstrativo quando ele chega, ligar cada glosa à conta e ao item de origem e transformar o motivo recorrente em conferência que roda em toda conta daquela operadora antes de ela sair do hospital.
Perguntas frequentes
O de análise mostra a decisão da operadora sobre cada guia e cada item do lote: o valor cobrado, o valor liberado, o valor glosado e o código do motivo. O de pagamento informa o que foi efetivamente pago numa data, com os descontos e créditos daquele pagamento. Os dois fazem parte do padrão TISS, e o recurso de glosa sai do primeiro.
É o valor que a operadora usou como base para calcular o pagamento do item, da guia ou do lote. Ele é diferente do valor informado, que é o que o hospital cobrou, e do valor liberado, que é o previsto para pagamento. Quando o processado difere do informado, a operadora recalculou a linha, e vale conferir qual tabela e qual versão ela aplicou.
O contrato não pode impedir o hospital de ter acesso às justificativas das glosas nem de contestá-las, pelo artigo 5º da RN 503/2022, desde que o faturamento seja enviado no padrão TISS vigente. No padrão, o motivo vem em código da Tabela 38, no lote, na guia ou no item. Glosa sem motivo, ou com motivo que não corresponde a código vigente, pode ser questionada antes de qualquer discussão de mérito.
As causas mais comuns são guia que ficou fora do processamento, item lido com quantidade ou valor diferentes do enviado e erro de soma de um dos lados. Pela definição do padrão, o valor liberado é o informado menos o glosado, e os totais da guia e do lote são a soma das linhas. Se a conta não fecha, o primeiro passo é pedir a revisão do processamento.
O prazo é o que está no contrato com a operadora. A RN 503/2022 obriga o contrato a trazer expressos o prazo para contestar a glosa, o prazo de resposta da operadora e o prazo de pagamento quando a glosa é revertida, e determina que o prazo de contestação seja igual ao de resposta. Vale registrar a data limite de cada lote no dia em que o demonstrativo chega.
Fontes: ANS, Padrão TISS, Componente de Conteúdo e Estrutura, legenda do Demonstrativo de Análise de Conta. Resolução Normativa nº 503, de 30 de março de 2022, artigos 5º e 14. Resolução Normativa nº 501, de 30 de março de 2022, que torna o padrão TISS obrigatório. Observatório Anahp 2026, com dados de 2025. ZG Soluções, Panorama do Ciclo de Receita 2026. O exemplo numérico é ilustrativo.
Quanto da sua glosa dava para evitar antes do envio?
Dois terços do que a operadora contesta é falha de código, valor, documento ou autorização. Em oito semanas, da assinatura ao sistema no ar, toda conta passa a ser conferida contra o contrato daquela operadora antes de sair.
