O motivo da recusa quase nunca chega escrito por extenso. Chega como um código de quatro dígitos, tirado da Tabela 38 do padrão TISS, e é esse número que decide se a conta volta com correção de cadastro ou com relatório médico anexo. Ler o código antes de recorrer separa recurso aceito de recurso repetido.
A conta de errar essa leitura é alta. Entre os hospitais associados à Anahp, o índice gerencial de glosa inicial, que mede o valor recusado antes de qualquer negociação, foi de 15,93% em 2025, contra 11,89% em 2023. No mesmo ano, o prazo médio de recebimento chegou a 77,35 dias, e o prazo para pagar fornecedor ficou em 48,30 dias.
A proporção também importa. No Panorama do Ciclo de Receita 2026 da ZG Soluções, 67,9% do volume glosado vem de causa evitável, como erro de cadastro e documentação incompleta, e só 3,55% é divergência clínica de verdade. O código informado pela operadora é onde essa diferença aparece primeiro.
Neste texto
De onde vem o código que a operadora envia
O nome oficial é Tabela 38, Terminologia de mensagens (glosas, negativas e outras). Ela fica no Componente de Representação de Conceitos em Saúde do padrão TISS, o mesmo que abriga a TUSS, e na versão em vigor, identificada como 202607, tem 470 termos ativos.
O item 107 do Componente Organizacional diz que essas mensagens respondem ao que o prestador envia nos processos de autorização e de cobrança. Nada disso é opcional: a Resolução Normativa nº 501, de 30 de março de 2022, tornou o padrão TISS obrigatório nessa troca, e o item 325 registra que descumprir regra do padrão configura infração administrativa prevista no artigo 47 da RN 489, de 29 de março de 2022.
Repare no nome completo: glosas, negativas e outras. Nem toda mensagem recusa pagamento. O 3136 informa que o item foi autorizado e o 3095 confirma que o recurso foi acatado. Tratar tudo que vem pela Tabela 38 como glosa infla o indicador do hospital.
As famílias de código, faixa por faixa
A numeração não é hierarquia rígida, é herança de vinte anos de acréscimos. Ainda assim cada faixa guarda um assunto, e já diz para qual mesa o item vai.
| Faixa | Do que trata | Códigos vigentes |
|---|---|---|
| 1001 a 1104 | Beneficiário, carteira e protocolo do lote | 11 |
| 1202 a 1323 | Prestador, credenciamento e preenchimento da guia | 15 |
| 1411 a 1437 | Autorização, senha e auditoria prévia | 11 |
| 1503 a 1609 | Dados clínicos, CID, tipo de atendimento e datas | 12 |
| 1705 a 1747 | Valor, tabela de preço e acerto de pagamento | 25 |
| 1801 a 1918 | Procedimento, acomodação, diária e permanência | 25 |
| 2502 a 2909 | Tratamento seriado, honorário, pacote e recurso de glosa | 24 |
| 3019 a 3168 | Odontologia, auditoria e mensagens operacionais | 121 |
| 3169 a 3312 | Procedimento e item assistencial, o bloco novo | 144 |
| 5001 a 5085 | Mensagem eletrônica e envio de dados à ANS | 82 |
Duas leituras saltam do quadro. O antigo miolo da tabela, as faixas 2000 a 2400, sumiu. E o maior bloco hoje é o mais novo, onde a glosa de material, medicamento, taxa e OPME passou a cair.
Forma, mérito e recado informativo
Antes de montar o recurso, classifique o código em uma de três caixas. Cada uma exige gente e prazo diferentes, e misturar as três é a causa mais comum de recurso que volta com a mesma glosa.
- Forma. O dado está errado, faltando ou ilegível, e a discussão clínica nem começou. É o caso do 1001, carteira inválida, do 1308, guia já apresentada, do 3219, código do item preenchido incorretamente, e do 3230, documentação incompleta ou ausente.
- Mérito. O dado chegou certo e a operadora discorda do que foi feito ou do quanto foi feito. Entram aqui o 1903, permanência incompatível com a evolução clínica, o 3217, cobrança sem justificativa suficiente, e o 3288, procedimento que não atende a diretriz de utilização do Rol. Sem prontuário e relatório do assistente, o recurso não sai do lugar.
- Informativo. Não é recusa, é aviso. O 1721 diz que o código cobrado foi substituído pelo código pago, o 1722 diz que o valor saiu conforme negociação e o 3143 registra valor acatado por decisão judicial.
Há uma zona cinzenta. O 3251, item em desacordo com os critérios técnicos da operadora, e o 3234, evento glosado por auditoria, descrevem critério interno da fonte pagadora. Nesses, o recurso começa pedindo qual é o critério e onde ele está no contrato.
A faxina de 2026: 314 códigos saíram da tabela
A Tabela 38 passou pela maior revisão da sua história, e muita régua interna ficou desatualizada sem ninguém perceber. Na versão de novembro de 2025, a ANS incluiu 144 termos, alterou 45 e inativou 314, conforme os itens 9.4, 9.24 e 9.35 do Componente Organizacional. Os novos valem desde dezembro de 2025 e ocupam a faixa de 3169 a 3312. Os inativados venceram em 30 de junho de 2026. De 784 linhas, a tabela ficou com 470.
O que desapareceu foi a lógica de separar a glosa pelo tipo de item. Saíram as famílias de material (2000), medicamento (2100), OPME (2200), gases medicinais (2300), taxa e aluguel (2400) e exame (2700), além de quase toda a de pacote (2800). No lugar entrou uma linguagem única, procedimento ou item assistencial. Onde havia o 2010, material incluso nas taxas, e o 2110, medicamento incluso nas taxas, hoje há um código só, o 3207.
O efeito prático é chato e silencioso. Relatório que agrupa glosa por faixa joga quase tudo em uma família só, e a regra que mandava 2200 para a mesa de OPME deixa de disparar. Vale conferir a régua interna contra a versão vigente, não contra a planilha baixada em 2019. Pelo item 323, o prazo de implantação de uma atualização fica entre três e doze meses depois do início da vigência.
E quando chega um retorno com número que não está mais na tabela, ou com frase em texto livre no lugar do código, existe regra. Os itens 116 e 117 do Componente Organizacional, vindos da RN 501, vedam à operadora usar código próprio para termo que já consta na TUSS depois de encerrado o prazo de implantação. Se o motivo não corresponde a termo vigente, o hospital não tem como responder ao que foi alegado, e o recurso pode começar aí.
Os códigos 5xxx, que não são glosa de conta
Essa faixa confunde muita gente. O item 108 do Componente Organizacional explica: entre as mensagens da Tabela 38 estão as de retorno da ANS para as operadoras, e a extração dessa parte forma a tabela de erros no envio de dados. Boa parte dos 82 códigos não fala da sua conta, como o 5018, certificado digital inválido.
Outros param o lote inteiro antes de qualquer análise. O 5001, mensagem fora do padrão TISS, o 5002, arquivo XML que não pôde ser validado, e o 5042, valor da guia diferente do somatório dos itens, são problemas de integração. Quem resolve é quem cuida do sistema, e até lá o faturamento nem entrou na fila.
Como usar o código na rotina do faturamento
Ler código um a um não escala. O que escala é tratar o código como campo estruturado desde a entrada, e não como texto colado numa observação.
- Guarde o código, não só o valor. Muita equipe registra o valor e descarta o motivo. Sem código gravado por item, não há medição depois.
- Conte por código, não por família. A família diz o assunto, o código diz a causa. Um ranking dos vinte mais frequentes do trimestre costuma mostrar três ou quatro puxando a maior parte do volume.
- Separe forma de mérito. Recurso de forma vai para o faturamento com prazo curto. O de mérito vai para a auditoria, com documento clínico anexado antes de sair.
- Confira se o código ainda existe. Depois de 30 de junho de 2026, código das faixas 2000 a 2400 não deveria aparecer. Se aparece, é sistema desatualizado do outro lado.
- Meça reincidência. Código que se repete todo mês não é problema de recurso, é problema de processo na origem, quase sempre no cadastro ou na autorização.
Nada disso depende de ferramenta cara. Uma planilha com código, valor, data e setor já expõe o padrão. Quando o volume cresce, a leitura e o roteamento viram trabalho automático, que é a parte que a Aferi resolve para o hospital. O raciocínio é o mesmo: primeiro entender o motivo, depois escolher a briga.
Perguntas frequentes
É a Terminologia de mensagens (glosas, negativas e outras), uma das tabelas do Componente de Representação de Conceitos em Saúde do padrão TISS, mantida pela ANS. Ela lista os códigos que a operadora usa para dizer por que negou uma autorização ou recusou o pagamento de um item da conta. Na versão vigente, identificada como 202607, tem 470 termos ativos, e nem todos são recusa.
No site da ANS, na página do padrão TISS, dentro do arquivo do Componente de Representação de Conceitos em Saúde. O pacote vem compactado e traz a planilha TUSS, demais terminologias, com a aba Tabela 38. Para cada código ela informa o início de vigência e, quando existir, o fim de vigência. Essa última coluna diz se o código ainda vale.
Provavelmente porque o sistema dela ainda usa a versão antiga. Na revisão de novembro de 2025, a ANS inativou 314 termos da Tabela 38, com fim de vigência em 30 de junho de 2026, e criou 144 novos na faixa de 3169 a 3312. Os códigos de material, medicamento, OPME, gases e taxas viraram termos genéricos de procedimento ou item assistencial. Se um deles chega hoje, vale pedir o motivo em código vigente.
O padrão TISS é obrigatório na troca entre operadoras e prestadores por força da RN 501, de 30 de março de 2022, e o motivo da recusa é uma das informações padronizadas nessa troca. O Componente Organizacional ainda veda à operadora usar código próprio quando já existe termo equivalente na TUSS com prazo de implantação vencido. Descumprir regra do padrão é infração administrativa, pelo artigo 47 da RN 489, de 2022.
A glosa administrativa nasce de falha de dado ou de documento: carteira inválida, guia já apresentada, data ausente, código preenchido errado. A técnica questiona o que foi feito ou a quantidade cobrada, como permanência incompatível com a evolução clínica ou item sem justificativa suficiente. A primeira se corrige e se reapresenta, a segunda exige prontuário e relatório do médico assistente. Pelo levantamento da ZG Soluções para 2026, a maior parte do volume glosado é do primeiro tipo.
Fontes: ANS, Padrão TISS, Componente Organizacional, versão julho de 2026, itens 107, 108, 116, 117, 323 e 325, e itens 9.4, 9.24 e 9.35 sobre a versão de novembro de 2025. ANS, Componente de Representação de Conceitos em Saúde, versões 202601 e 202607, planilha TUSS, demais terminologias, aba Tabela 38. Resoluções Normativas nº 501 e nº 489, ambas de março de 2022. Observatório Anahp 2026, Sistema de Indicadores Hospitalares Anahp. ZG Soluções, Panorama do Ciclo de Receita 2026.
Quanto da sua glosa dava para evitar antes do envio?
Dois terços do que a operadora contesta é falha de código, valor, documento ou autorização. Em oito semanas, da assinatura ao sistema no ar, toda conta passa a ser conferida contra o contrato daquela operadora antes de sair.
